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politicavenezuela | “Esta Palma de Ouro vai ajudar as realizadoras a ter mais coragem”

Performance?

Sim, voilá ! Acabou por ser divertido pois tratava-se de um jogo. Tinha de arranjar uma forma de ter prazer por mais duro que fosse. No sofrimento é possível encontrar diversão. Dizia a mim mesma: “diverte-te! Isto é apenas um pequeno espetáculo”

Ícone de moda e da fotografia underground, Agathe Rousselle estreia-se no cinema na pele de Alexia, uma serial killer em espiral de crime e violência sexual em Titane , o filme-choque de Julia Ducournau. Antes do cinema, a sua carreira como manequim e fotógrafa arty misturava-se com a sua fanzine feminista, Peach , tendo ainda contribuição na famosa revista web General Pop . Como se não bastasse, criou também uma linha fashion de bordados chamada Cheeky Boom. Agora, aos 33 anos quer ser atriz. Nesta conversa, não esconde o seu sangue ativista.

Ao receber a Palma de Ouro, a realizadora de Titane , Julia Ducournau, falava na felicidade de terem deixado entrar os seus monstros… Monstros que são as vítimas de um preconceito da sociedade, certo?

Pois, creio que ela fala das pessoas que marcam uma diferença. São as pessoas que são vítimas dos preconceitos e catalogadas de minorias. Hoje em dia os monstros são todos aqueles que sofrem por serem diferentes. Enfim, a discriminação.

Trouxe alguma coisa para a personagem de si própria?

Na verdade, a construção da personagem é toda da Julia Ducournau, cineasta que sabia muito bem o que queria. Por vezes dei algumas sugestões mas limitei-me a dar-lhe a mão e ser guiada. A Julia tinha tudo muito claro na sua cabeça, da luz aos décors. Senti-me muito segura.

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Subscrever Sente que o filme criou um debate sobre as políticas do corpo em França?

Senti que houve uma unanimidade em torno de Titane. Obviamente, criou uma reflexão sobre as questões de género, mesmo não sendo um filme sobre género, mas sim sobre fluidez e aquilo que somos capazes de fazer com o corpo. Afinal, todos nós podemos ter uma metamorfose com o nosso corpo. Diria que isso é algo sobre a capacidade humana. O nosso corpo pode ser muita coisa.

As sequências mais extremas de sexo e violência foram complicadas para si na rodagem? Tratou-se mais de um processo?

Foi tudo muito trabalhado antes e eu sabia que este era um papel muito físico. Preparei-me muito ao nível físico, sabia que iria ser duro. Quando aceitei este filme sabia onde iria meter-me e que iria ter sexo com um carro. Aliás, essa cena foi logo no começo das filmagens e nessa altura tudo era novidade para mim. No meu subconsciente, tudo aquilo era como se fosse uma maneira de poder fazer um pequeno show em frente de algumas pessoas. Um espetáculo algo bizarro mas com noção de show.

Performance?

Sim, voilá ! Acabou por ser divertido pois tratava-se de um jogo. Tinha de arranjar uma forma de ter prazer por mais duro que fosse. No sofrimento é possível encontrar diversão. Dizia a mim mesma: “diverte-te! Isto é apenas um pequeno espetáculo”.

O filme fala também de uma masculinidade tóxica através das personagens dos bombeiros…

Isso é uma coisa muito instituída na sociedade patriarcal francesa. O francês comum é assim, mas algo está a mudar, na comunidade LGBT são muitos os que querem ter a palavra e que fazem com que esteja a surgir algum tipo de mudança. O problema é este presidente que temos, uma catástrofe, alguém que perpetua essa ideia patriarca e que toma o poder de forma tóxica.

Esta Palma de Ouro a um filme como este pode ser um safanão no cinema francês?

Espero que mostre aos cineastas franceses que agora não têm que fazer mais “cinema francês”. É bom que os cineastas descubram a liberdade que a Julia tem e que contem histórias maiores que as suas vidinhas, não obstante conseguirmos encontrar coisas maravilhosas no cinema francês… Na verdade, o que é preciso é filmar verdadeiramente o que lhes vai na cabeça. Esta Palma vai ajudar as realizadoras a ter mais coragem.

Como é que está a ser a sua vida após todo este sucesso e exposição?

Tudo muda, mas também nada muda. Depois de Cannes, devido à pandemia, não senti muito o efeito do reconhecimento. Se quer que lhe diga, continuei a fazer as minhas compras sem ser reconhecida. Mas agora, claro, tudo se começa a mexer. A loucura disto tudo é que começo a conhecer muita gente. Por outro lado, quero ter algum tempo para escolher bem o que vou fazer a seguir. Depois de um papel assim não posso fazer qualquer coisa só por fazer. Tenho que ter muito cuidado com o próximo filme – tenho de manter o nível.

Por outro lado, continua a ter a sua vida ligada à fotografia…

Sim, isso não muda. Estou tranquila, quero fazer outros filmes, outras coisas. Com Titane cheguei onde queria, atingi o meu sonho ou estou perto de o fazer, ou seja, o meu sonho era ter uma carreira como atriz. Vivo a vida que ambicionei e isso deixa-me muito feliz.

Como se descreve como fotógrafa?

O meu trabalho passa sempre por uma vertente documental e sempre amei os retratos. Sempre andei com uma pequena máquina de bolso, fotografo tudo a toda a hora, esteja numa saída à noite, num concerto, seja onde for, embora seja sempre discreta. Quero compreender tudo o que me envolve.

E o que ganhou pessoalmente com a experiência de ter feito agora cinema?

Ganhei uma força que não sabia da sua existência. Quando vi o filme pela primeira vez nem quis acreditar, seria mesmo eu a fazer tudo aquilo!? Fiquei muito orgulhosa. E a força que menciono é uma força de grupo, a equipa de rodagem deu-me essa força, essa energia louca. O Vincent Lindon também acabou por me dar muita energia. Fiquei a aprender como podemos transmitir energia e força uns aos outros.

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